ATP Graciosa

11 12 2011

Era sábado, 11 de Dezembro de 1999. Estava em S. Roque do Pico. Da sala onde participava num conselho de turma de avaliação, tinha vista privilegiada para o canal entre o Pico e S. Jorge. O tempo estava muito mau. Temia o cancelamento da viagem para Lisboa na semana seguinte.
A certa altura, uma colega comentou “coitados daqueles, grande pancadaria”. Todos olhámos preocupados ao ver o ATP que parecia uma pena sem rumo sobre o canal. Só quando cheguei a casa é que percebi que a desgraça tinha acontecido. O avião que desaparecera dos radares. O avião que embateu contra o Pico da Esperança. Sem sobreviventes.

Era o ATP Graciosa. O avião onde tinha voado mais vezes nos anos anteriores. Era o avião que me tinha transportado na primeira viagem entre a Terceira e a Graciosa. E as pessoas. Até arrepia pensar nas pessoas que lá iam e das quais apenas conhecia o pessoal de cabina.

Desde esse dia, há 12 anos, que ganhei pavor de voar.

Continuei no cá e lá. Fiz viagens terríficas, em especial inter-ilhas. Fiz viagens lindíssimas sobre as ilhas, sobre o mar, sobre as nuvens, ao pôr do sol, ao nascer do sol, de noite. “You name it”.
Mas nunca mais fiz uma viagem pacífica. De cada vez que entrava num avião tinha a certeza de que era a última viagem e que algo terrível iria acontecer.

Estou a escrever este texto pela memória dessas pessoas. Mas também por mim. Preciso de exorcizar este medo irracional e voltar a entrar num avião. Voltar a ver mais mundo.


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