A memória é o raio

11 06 2013

Gosto muito de castanhas. Assadas de preferência. Não são só as castanhas, bem entendido. São as memórias que as castanhas me permitem reviver. Lisboa. A infância. Aquela simplicidade de que não tínhamos consciência. Tudo parecia complicado nesses dias. Intenso. Assustador.

A memória com castanhas mais antiga, e mais forte,  tem o Carlos Manuel como protagonista. Claro, tinha que ser o Carlos Manuel. Só ele é que tinha coragem para transgredir uma e outra e outra vez.

Um dia resolveu ir até à Baixa comprar-nos castanhas. Uma delícia. O pior foi o dia seguinte… a fotografia dele a comprar castanhas apareceu na primeira página de um jornal diário. Na escola ele foi o herói do dia. No regresso a casa íamos cheios de medo e de esperança que os nossos pais não vissem o jornal. Mas viram.

Ainda recordo o aperto no coração quando vi a mãe chegar a casa com o jornal na mão. Surpresa! Ela estava sorridente!

Eu não disse que eram dias simples?

Tenho muitas saudades do Carlos Manuel.

eduardo gageiro, bairro alto (lisboa: 1969)
eduardo gageiro, bairro alto (lisboa: 1969)

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vertigem

20 07 2012

Há uma semana que me disseram para “saltar”. Na gíria  dos professores quer dizer que a minha escola não tem trabalho para mim. Na realidade tem, mas não tem, mas… Pois, não é mesmo para entender.  Tem sido complicado para mim. Mais para os meus colegas contratados. Para a maior parte deles também não há lugar, apesar de haver. Não percebo. A sério que não percebo porque é que nos estão a fazer passar por este pesadelo depois de um ano tão complicado. Estou de rastos.





Mexe-te!

16 07 2012

Uma pessoa fica colocada numa escola e pensa: Esta é a minha escola. E acomoda-se com o pensamento de que não será preciso concorrer por obrigação, só quando a novidade falhar e a rotina ameaçar instalar-se.

ILUSÃO.

Deram-me um piparote e disseram-me que afinal tenho de ir para outra escola mas que se calhar, muito provavelmente, voltaria à mesma escola, mas por via das dúvidas… corta-se nos mais novos que são os que têm mais genica para se mudar, ou por qualquer outra razão, que para o caso o que importa é pôr as pessoas a mexer. Ou a experimentar uma sensação de insegurança que pode ser muito radical.

E não querem lá ver? Foi como se me dessem uma injecção de energia directa. Passou-me a preguiça e só me apetece passear. Daqui para fora e para longe de certas pessoas, é uma realidade, mas o ponto é que tenho a minha energia de volta.
O meu velho mote voltou a fazer sentido “Zé, em movimento!”


(c) 2012 by North America Syndicate, Inc. World rights reserved.





tristonha

11 07 2012

Não sei explicar porquê, mas quando vi esta foto de Saul Leiter, no Le Clown Lyrique, senti uma identificação com esta sensação de tristeza difusa que sinto nestes dias de incerteza. Como se vivesse dias do inverno mais rigoroso em pleno verão. E uma cortina negra que esconde quase tudo e que eu não sei se quero levantar porque o que entrevejo é agreste.


Saul Leiter
Canopy
ca. 1957
© Saul Leiter
Courtesy: Saul Leiter, Howard Greenberg Gallery, New York





Na véspera de não partir nunca

3 03 2012

Na véspera de não partir nunca
Ao menos não há que arrumar malas
Nem que fazer planos em papel,
Como acompanhamento involuntário de esquecimentos,
Para a parte ainda livre do dia seguinte.

Não há que fazer nada
Na véspera de não partir nunca.

Grande sossego de já não haver sequer
De que ter sossego!
Grande tranquilidade a que nem sabe encolher ombros
Por, pobre tédio, ter passado o tédio
E ter chegado deliberadamente a nada.
Grande alegria de não ter precisão de ser alegre,
Como uma oportunidade virada do avesso.

Há quantos meses vivo
A vida vegetativa do pensamento!
Todos os dias sine línea…

Sossego, sim, sossego…
Grande tranquilidade…
Que repouso, depois de tantas viagens, físicas e psíquicas!
Que poder olhar para as malas fechadas como para nada!

Dormita, alma, dormita!
Aproveita, dormita!
Dormita!

É pouco o tempo que tens! Dormita.
É a véspera de não partir nunca!…

Álvaro de Campos, In Poesia , Assírio & Alvim, ed. Teresa Rita Lopes, 2002


(Tirei esta foto numas ruínas do Bairro do Castelo, Castelo de S. Jorge, bem entendido)





Dia cinzento

9 11 2011


Vilhelm Hammershøi, Quarto, 1890.

Gostava que dias assim…

… fossem mais vezes intercalados por momentos assim…


Vilhelm Hammershøi, Raio de Sol, 1900.





19h – 40ºC

13 10 2011

Uma reunião que se prolonga pela tarde fora. A impaciência a crescer. No caminho para casa passo pela farmácia e tomo consciência de que já passa das 7 da noite e estão 40ºC. É assim desde o início do ano lectivo.  Estou a fazer os primeiros testes com a mesma sensação que sinto na altura dos testes finais. Uma cansaço, uma impaciência, um desejo de férias. As salas quentes como estufas, os alunos agitados e sem concentração nenhuma, a professora sem energia para criar ritmo de trabalho, a irritação face à mínima contrariedade.
Não sei se aguento muito mais este calor sufocante fora de tempo.